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Acender o primeiro cigarro do dia é, para muita gente, um gesto automático. Em segundos, a nicotina chega ao cérebro e devolve a recompensa que sustenta o hábito. Por isso parar de fumar é fácil de decidir, mas difícil de manter. Diante desse cenário, o Laboratório Cristália apresentou na última quinta-feira (27/8), em Jaguariúna (SP), os resultados preliminares de um projeto inédito no país: uma vacina antitabagismo.
Durante a coletiva, o professor da Unifesp, José Roberto de Brito Jardim, lembrou que o tabagismo é uma doença de dependência (CID F17). A fumaça do cigarro reúne 7 mil substâncias, das quais ao menos 70 são cancerígenas, segundo o Instituto Nacional do Cãncer (INCA), e está ligada a inúmeras doenças, da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) ao câncer. Nas capitais, 11,5% dos adultos fumavam em 2024, índice estável desde 2019 (Vigitel/Ministério da Saúde), e a reposição de nicotina com psicoeducação alcança no máximo 50% de sucesso.
A Organização Mundial da Saúde estima que o tabaco cause 8 milhões de mortes por ano. E a recaída é regra: 85% das pessoas que tentam largar o cigarro voltam a fumar no primeiro ano; dois terços, nas duas primeiras semanas, segundo uma pesquisa da National Institute on Drug Abuse.
O fundador do Cristália, o médico Ogari Pacheco, contou como a ideia nasceu. “Em algum momento pensei: o corpo humano tem um sistema imunológico perfeito. E se descobríssemos uma maneira de colocar esse sistema para combater a adicção?”
O caminho foi sintetizar uma molécula que acopla a nicotina, pequena demais para ser notada pelo sistema de defesa, a uma estrutura imunogênica. Vacinado, o organismo produz anticorpos que capturam a substância no sangue: o complexo não atravessa a barreira do cérebro, e o pico de dopamina não acontece.
O objetivo foi sintetizar uma molécula que acopla à nicotina, pequena demais para ser notada pelo sistema de defesa, a uma estrutura imunogênica. Vacinado, o organismo produz anticorpos que capturam a substância no sangue: o complexo não atravessa a barreira do cérebro e o pico de dopamina não acontece.
Vice-presidente de PD&I, Rogério Almeida, explicou que o estudo teve grupo controle e três aplicações, com uma boa resposta imunológica. Faltam sete etapas pré-clínicas, em duas espécies, antes do pedido à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Vamos acelerar e fazer coisas em paralelo para encurtar isso. A gente acredita que em até dois anos já deva estar conseguindo iniciar os primeiros estudos em humanos e esperamos que tudo seja promissor diante do tabagismo, um problema de saúde pública mundial”, afirmou.
Responsável pelo modelo experimental em ratos, a professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Gisele Zapata-Sudo detalhou essa etapa, concluída em cerca de cinco meses. Foram usadas só fêmeas, mais suscetíveis à dependência e a sintomas como ansiedade e depressão. Estabelecido o vício, receberam três doses, sendo uma por mês. “Todos os imunizados tiveram soroconversão, a formação de anticorpos. Isso em 100% deles”, disse.